As IA’s Vão Acabar Com a Água do Planeta!

Sempre que você digita uma pergunta inofensiva como “por que o céu é azul?”, “pode me ajudar a resolver esse problema de matemática?” ou “me ajude a criar um site”, a Inteligência Artificial está consumindo água de forma silenciosa. De acordo com Sam Altman, o chefe da OpenAI, cada interação única com o ChatGPT utiliza menos de um décimo de uma colher de chá de água, o que equivale a aproximadamente uma gota. No entanto, a conta fica gigantesca quando lembramos que bilhões de mensagens são enviadas a esse chatbot todos os dias. Se adicionarmos a essa conta outros grandes modelos do mercado, como Gemini, DeepSeek e Claude, fica evidente que a água se tornou um recurso fundamental e intensamente explorado para manter a inteligência artificial operando.

Por Que a Inteligência Artificial Tem Tanta “Sede”?

O caminho de qualquer comando que você digita começa em um data center, estrutura que funciona como o cérebro da rede mundial de computadores. Esses locais abrigam chips com um poder computacional altíssimo, desenvolvidos especificamente para realizar cálculos complexos e gerar as respostas interativas que você recebe na tela. O grande problema ambiental nasce porque esse processamento intenso gera muito calor. A água entra nesse circuito de duas formas: primeiramente, ela já é usada na geração da energia elétrica que alimenta os servidores, como ocorre nas turbinas de usinas hidrelétricas. Em segundo lugar, e de forma mais preocupante, a água passou a ser consumida diretamente na refrigeração dos próprios data centers voltados para a IA.

Ao invés de utilizarem o tradicional resfriamento a ar, as empresas de tecnologia passaram a usar sistemas de resfriamento líquido. Nesse modelo, um fluido de arrefecimento circula diretamente sobre os servidores para absorver o calor, seguindo depois para uma unidade de troca onde é resfriado por um sistema secundário abastecido com água. A água aquecida nesse processo é então canalizada para uma torre de resfriamento, onde até 80% dela simplesmente evapora para a atmosfera. O volume restante é reutilizado algumas vezes dentro do sistema e, por fim, descartado. O detalhe mais grave de toda essa operação é que os sistemas exigem o uso estrito de água limpa e potável. Essa exigência técnica existe para evitar o surgimento de bactérias, obstruções e corrosões nos equipamentos de ponta, o que significa que as big techs estão extraindo diretamente um recurso vital de um circuito hídrico que seria usado para o consumo humano, a higiene e a irrigação agrícola.

A Batalha dos Números: Uma Gota ou Uma Garrafa Inteira?

Saber com exatidão a quantidade total de água utilizada é uma tarefa quase impossível, pois as grandes empresas operam as estruturas de IA como verdadeiras “caixas pretas” de dados e não divulgam métricas detalhadas. Em seus relatórios anuais de sustentabilidade, as companhias apenas mencionam o uso genérico de bilhões de litros de água provenientes de fontes locais, mas não especificam quanto desse volume vai especificamente para a operação técnica dos chatbots ou para o denso treinamento de novos modelos de IA.

Diante da falta de transparência das corporações, restou aos pesquisadores independentes a missão de tentar estimar o real impacto do setor. O professor Shaolei Ren realizou um cálculo englobando o consumo de um modelo de médio e grande porte, equivalente ao tamanho do GPT-3, somando a água dissipada na geração de energia e a evaporada no sistema de refrigeração líquido. A sua conclusão apontou que uma simples troca de 10 a 50 consultas no sistema consome cerca de 500 ml de água, o equivalente a uma garrafa. Ren se mostrou extremamente cético quanto à afirmação do CEO Sam Altman de que uma interação consumiria apenas “uma gota”, sugerindo que o número da OpenAI talvez se refira somente a cálculos de modelos minúsculos e isolados. Questionada pela BBC para explicar e dar detalhes sobre a estimativa de Altman, a OpenAI declinou o pedido.

O Impacto Energético e a Expansão Assustadora no Brasil

O consumo insaciável de energia da IA segue a mesma lógica obscura de falta de dados. O pesquisador holandês Alex de Vries utilizou o volume de vendas de chips da TSMC, a principal fornecedora mundial para a indústria de IA, para realizar estimativas fundamentadas de gasto elétrico. Segundo suas equações de capacidade e eficiência, o consumo global de energia impulsionado pela IA no ano passado já se equiparava a toda a eletricidade consumida por um país como a Holanda.

No Brasil, o cenário de expansão tecnológica também impressiona. Atualmente, o país abriga cerca de 160 data centers operando com uma capacidade instalada que varia entre 750MW e 800MW. No entanto, projeções oficiais do Ministério de Minas e Energia indicam que a demanda por energia elétrica nesse setor deve crescer mais de 20 vezes até o ano de 2038. A estimativa é atingir a marca de 17.716 MW, o que seria o equivalente energético necessário para sustentar uma cidade gigantesca de 43 milhões de habitantes — correspondendo a quase quatro vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade, aponta que o mercado brasileiro difere do norte-americano, pois usamos menos capacidade para o treinamento direto dos grandes modelos de linguagem, e ressalta que as nossas limitações de recursos acabam estimulando o desenvolvimento de soluções locais de menor impacto, como estudos envolvendo o uso do biometano.

As Soluções “Verdes” Também Cobram o Seu Preço

Muitos data centers instalados no Brasil utilizam um modelo fechado de refrigeração a ar, cujo consumo de recursos hídricos é consideravelmente menor, e funcionam abastecidos por fontes de energia renovável, como a solar e a eólica. Contudo, é uma ilusão acreditar que essa infraestrutura verde não gera consequências pesadas.

Embora essas alternativas causem impactos muito menores nas emissões de gases de efeito estufa quando comparadas aos combustíveis fósseis, existem relatos reais no Brasil de moradores que sofrem com quadros de depressão, insônia e surdez em função do alto barulho gerado pelas turbinas eólicas instaladas nas proximidades de suas casas. Além disso, projetos sustentáveis enfrentam casos de intensos conflitos territoriais com as comunidades locais e demandam um uso massivo de água simplesmente para realizar a limpeza constante das grandes fazendas de painéis solares. No fim das contas, especialistas alertam que a humanidade precisa urgentemente de muito mais transparência sobre o funcionamento das cadeias de IA, pois só com dados reais conseguiremos pesar de forma justa o alto custo social e ambiental que o progresso tecnológico nos cobra.