Encapsulados Realmente Funcionam?
Quando a promessa de cura rápida e milagrosa aparece no seu feed das redes sociais, é hora de desconfiar. Uma engenhosa rede formada por influenciadores de marketing digital e donos de empresas de suplementos alimentares está utilizando técnicas fraudulentas e perigosas para enganar consumidores na internet. Através de promessas ilusórias de curas de doenças, eles estruturaram um modelo de negócios que lucra alto às custas da saúde, da vulnerabilidade e da boa-fé dos usuários, transformando informações falsas em ferramentas agressivas de venda.
A Escola da Fraude e as Promessas Milagrosas
O esquema funciona como uma verdadeira “escola” de vendas enganosas. Por meio de aulas no YouTube e grupos focados no Telegram — que chegam a reunir a impressionante marca de 69 mil membros —, esses líderes ensinam um passo a passo para que revendedores (conhecidos como afiliados) ganhem dinheiro promovendo suplementos naturais.
As substâncias oferecidas nos grupos chegam a abranger 22 produtos diferentes, que são vendidos falsamente como tratamentos definitivos para doenças graves, como diabetes, glaucoma, catarata, incontinência urinária, gastrite e dores crônicas. Contudo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é clara: a venda de suplementos é legal, mas eles não são medicamentos. Apenas remédios podem alegar qualquer tipo de ação terapêutica e, para isso, necessitam de rigorosa comprovação clínica de eficácia e segurança exigida pelos órgãos reguladores.
Notícias Falsas e as Páginas Clones do G1
Para dar credibilidade aos falsos tratamentos e capturar a atenção imediata das vítimas, os golpistas criam páginas de pré-venda conhecidas internamente no esquema como “advertoriais”. Essas páginas são meticulosamente configuradas para simular grandes portais de notícias, copiando o layout, a estrutura visual e a logomarca de sites renomados como G1, UOL, Terra e Veja, além de páginas de programas consagrados da TV, como Fantástico e Globo Repórter.
Um vasto material de treinamento compartilhado através de pastas do Google Drive e do Telegram chega a ensinar detalhadamente como montar essa estrutura enganosa que eles chamam de “campeã”. Para piorar o cenário de desinformação, essas páginas utilizam vídeos totalmente descontextualizados de personalidades famosas e de credibilidade, como a apresentadora Ana Maria Braga e o médico Drauzio Varella, além de incluírem depoimentos 100% forjados de supostos clientes e médicos para vender a ilusão de que o produto funciona.
O Perigo Real e a Falsa Aprovação da Anvisa
Um dos pontos mais alarmantes dessa prática comercial é o risco direto à saúde de quem adquire os frascos. Em roteiros de vendas distribuídos especificamente para abordagens no WhatsApp, os revendedores chegam a sugerir de forma leviana que pacientes com diabetes reduzam o uso de insulina ou abandonem totalmente seus tratamentos tradicionais devido ao uso das “gotinhas” comercializadas. A Sociedade Brasileira de Diabetes alerta que isso é extremamente perigoso, pois nenhum medicamento isolado é capaz de controlar a doença e o abandono abrupto das orientações médicas pode gerar danos severos à saúde do paciente.
Para tentar passar uma imagem irrefutável de segurança governamental, as campanhas de marketing também utilizam o selo da Anvisa indevidamente em seus materiais publicitários, alegando que o produto é “aprovado”. A verdade técnica é que a Anvisa sequer registra, aprova ou avalia a eficácia de suplementos alimentares, exigindo apenas um simples comunicado de início de fabricação para o funcionamento.
A “Fazendinha” de Perfis Falsos e o Drible na Meta
Para espalhar essas mentiras em grande escala sem gastar muito dinheiro com publicidade paga e, principalmente, evitar bloqueios pelas rígidas regras de segurança da Meta (empresa dona do Facebook e Instagram), os influenciadores do esquema incentivam ativamente a criação das chamadas “fazendinhas de perfis”. Eles recomendam em aulas ao vivo que cada afiliado mantenha um estoque de 15 a 30 perfis totalmente descartáveis, orientando até que aqueles que investem pesado tenham centenas de contas ativas.
Com esse exército de perfis falsos em mãos, os revendedores inundam os grupos de Facebook com publicações disfarçadas de relatos pessoais, como se fossem pessoas reais comemorando que emagreceram ou se curaram. Em uma das aulas, sugere-se que um único perfil falso seja capaz de fazer publicações enganosas em até 80 grupos diferentes. As táticas secretas ensinadas para não levantar suspeitas incluem o aluguel de números de telefone e até mesmo a geração de fotos de rostos inexistentes através de ferramentas de Inteligência Artificial.
Conclusão
Vender suplementos alimentares no Brasil é uma atividade comercial permitida e legalizada, porém, a utilização de promessas terapêuticas inexistentes e notícias falsas para atrair clientes configura uma quebra severa da lei. Segundo o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor, essa prática se enquadra categoricamente como propaganda enganosa. O Procon alerta que todos os indivíduos envolvidos na teia, desde os donos e fabricantes das marcas até os pequenos revendedores que replicam os falsos sites de notícias, podem acabar respondendo administrativamente, civilmente e penalmente pelos danos causados. Esse cenário é um lembrete crucial: na internet, a receita milagrosa quase sempre esconde um golpe muito bem orquestrado.
